Formação de Defensores e Defensoras das Águas da bacia do Tapajós encerra ciclo com foco em incidência política

Curso forma 18 defensores das águas do Tapajós e fortalece incidência política de povos indígenas e comunidades tradicionais na governança hídrica.

© Kamila Sampaio / Movimento Tapajós Vivo (MTV)

Entre os dias 30 de abril e 4 de maio de 2026, foi realizado o terceiro e último módulo do Curso de Formação de Defensores e Defensoras das Águas do Tapajós. Com o tema “Incidir para Transformar a Realidade”, o encontro marcou o encerramento de um processo educativo que uniu conhecimentos tradicionais e científicos para fortalecer a participação dos povos indígenas e comunidades tradicionais nos espaços onde o futuro das águas é decidido. A força das águas agora conta com mais um reforço de 18 novos e qualificados guardiões, aptos a defender as necessidades locais para o desenvolvimento sustentável e inclusivo das regiões.  

Uma jornada de construção coletiva 

Este ciclo final representa a consolidação de uma trajetória iniciada em 2025, em Santarém (PA). O processo teve sua base lançada no primeiro módulo, realizado em setembro de 2025, com foco no reconhecimento dos territórios e na construção de princípios de convivência. Em dezembro do mesmo ano, o segundo módulo avançou para conteúdos estratégicos de governança e instrumentos jurídicos, qualificando os alunos para a incidência política. Agora, em maio de 2026, o curso encerra a jornada entregando ferramentas práticas para que as populações locais ocupem comitês, audiências e conselhos de forma qualificada. 

Aprendendo na prática 

A programação dos cinco dias foi articulada para simular os desafios reais enfrentados nos territórios, unindo teoria e prática. Os participantes vivenciaram dinâmicas de mobilização social, oratória popular e refletiram sobre a conjuntura política de 2026 para a região. No dia 3 de maio, o grupo realizou uma simulação de Audiência Pública sobre o projeto Ferrogrão, abordando os impactos nos territórios e nas águas da bacia do Tapajós.  Nessa atividade, os alunos assumiram papéis de autoridades, representantes do setor econômico e moradores locais, exercitando a capacidade de contestar narrativas e defender o direito ao território e ao uso sustentável da água.  No dia 4 de maio, o exercício do dia anterior foi aprofundado com a participação da turma em uma mesa redonda oficial, realizada na UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará). Os alunos estiveram na plateia acompanhando os debates e analisando as estratégias de fala e incidência. Esse fechamento na universidade, somado às oficinas práticas, aprofundou o entendimento sobre protocolos de consulta e a importância dos comitês populares e oficiais frente aos grandes empreendimentos que ameaçam a biodiversidade. 

“As Audiências Populares são momentos de troca e fortalecimento, onde reafirmamos a urgência de discutir os direitos dos rios e das populações que dependem dele. Encontrar caminhos para a governança popular é o que firma a resistência de quem luta pelos territórios”, destaca Luci Nascimento, do Movimento Tapajós Vivo, um dos parceiros de implementação do curso. 

Maria Rodrigues, indígena no povo Chiquitano, do Mato Grosso, e formanda do curso, ressalta como a iniciativa a ajudou: 

“O curso de Defensores e Defensoras das Águas foi muito importante para mim, principalmente para eu perder o medo de falar em público. Aprendi sobre audiência pública e isso abriu demais a minha cabeça. Foi muito bom conhecer outros lugares, a história de cada região e ver como cada povo vive de um jeito. Conviver com esse pessoal todo foi especial demais. Gostei muito!”  

Formatura e compromisso com o território e com as águas 

A cerimônia de formatura celebrou a conclusão do curso com entrega de certificados para os defensores e defensoras das águas que finalizaram todos os módulos do curso. Cada um dos participantes assumiu o compromisso de utilizar os conhecimentos adquiridos com sabedoria, buscando a integração entre a ciência e a sabedoria ancestral para defender seus territórios. O grupo firmou o compromisso de lutar contra qualquer forma de exploração predatória e racismo ambiental que ameace as águas e seus habitantes. 

Trícia Oliveira, Líder de Cidadania Ativa no WWF-Brasil, reforça a importância desse marco: “Encerrar esse ciclo é gratificante porque pudemos ver florescer algo muito maior do que um curso: é o fortalecimento de uma rede de defensores e defensoras profundamente conectados com seus territórios e cada vez mais preparados para ocupar espaços de decisão. Esse processo evidencia o quanto é essencial investir em quem está na linha de frente, garantindo que vozes indígenas, quilombolas e ribeirinhas sejam protagonistas na construção do futuro da bacia do Tapajós.” 

Sobre o projeto 

Esta ação faz parte do projeto Rumo a uma Gestão Participativa de Água na bacia do Rio Tapajós, financiado pelo Ministério Federal de Cooperação Econômica Desenvolvimento da Alemanha, por intermédio da rede WWF. A realização é feita por um consórcio de parceiros formado por Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa), Instituto Centro de Vida (ICV), Movimento Tapajós Vivo (MTV) e WWF-Brasil.